Editorial – A missão

Anna Peliano não tinha apenas o compromisso com o trabalho – ela tinha uma missão – combater a fome, a miséria e as desigualdades sociais que afetavam milhões de famílias de baixa renda em todas as regiões do Brasil 

Desde que chegou no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), na primeira metade da década de 1970, Anna Peliano assumiu o compromisso de levar a cabo essa missão, visto que nunca se conformou com o fato de que, em um país rico em recursos naturais e dimensões continentais, sendo um dos maiores produtores de alimentos no mundo, não tivesse condições econômicas e financeiras para apagar essa mancha que comprometia nossa imagem no exterior.  

Por isso, ela não se limitava a exercer as tarefas demandadas pela direção do Instituto aos profissionais que compunham a equipe da casa.  Além de exercer com zelo a tarefa de coletar informações, analisar o tema, explorar os resultados e publicar os textos para serem assuntos de debates internos e externos, ela buscava entender por que não via melhoras na situação do país.

Assim, a inquietude da socióloga fez com que ela sempre tentasse entender o que impedia que os governos e a sociedade se mobilizassem para combater esse triste cenário. Em pouco tempo, ela conseguiu entender a mensagem que estava escondida no poema de Carlos Drummond de Andrade – no meio do caminho que conduz ao cumprimento de uma difícil missão, tem muitas pedras que precisam ser ultrapassadas, uma após outra, e isso demandava muito empenho para prosseguir.

Anna encontrou muitas pedras, mas nunca desistiu. Era obstinada! À medida que não via disposição dos governos para fazer o que precisava ser feito, em um contexto no qual a crise fiscal não dava muito espaço e outras prioridades passaram a demandar suas fatias no restante do orçamento, a sociedade também encontrava limitações para se mobilizar em apoio à causa, fazendo com que ela procurasse novos caminhos para contornar as pedras que encontrou logo no início de sua trajetória profissional.  

Sua participação no programa Comunidade Solidária, presidido por Ruth Cardoso durante o governo do Presidente Fernando Henrique  Cardoso, deu-lhe a oportunidade que esperava para buscar novos aliados e adicionar outros suportes para angariar apoio à causa. Assim, assumiu o posto de coordenadora da pesquisa do Benchmarking do Investimento Social Corporativo – BISC – , que estuda o investimento social das empresas brasileiras e é conduzida pela Comunitas.

Os relatórios publicados pela organização, durante o período em que coordenou a pesquisa, mostram os bons resultados obtidos, marcados pela introdução de novos temas inseridos na pesquisa a cada ano para registrar os avanços do envolvimento do setor privado na área, bem como o interesse das empresas em ampliar o foco de sua atuação no campo social.  

Nessa mesma etapa de sua batalha, envolveu-se no grupo de nutrição e pobreza do Instituto de Estudos Avançados da USP, onde contou com a colaboração de professoras que há tempo se dedicam a essa tarefa, assumindo, em seguida, a coordenação do grupo onde pôde obter subsídios e sugestões para ampliar o foco de sua luta e trocar experiências com outros participantes.  

No relatório que elaborou em 2019, mostrou como novas ideias surgiam em sua mente para reforçar o compromisso de dar continuidade à sua missão. E, para documentar a sua trajetória, no dia 13/09, foi lançado um livro, no auditório do IPEA, que narra as batalhas enfrentadas ao longo da vida de Anna. Um incentivo para os jovens e novos estudiosos engajados na busca de soluções para o flagelo que acomete milhões de brasileiros.

As lições deixadas por ela, e para todos que se preocupam com essa situação, são muito importantes, em especial devido aos efeitos da crise sanitária e da guerra da Ucrânia. Um novo alerta, portanto, foi emitido, apontando para a multiplicação de casos de pessoas atingidas pela fome, indicando que o número de famílias vivendo em condições de insegurança alimentar se espalha pelo mundo.  

O Brasil, que é o maior produtor e exportador de alimentos no planeta, tem condições de lidar melhor com essa nova situação, mas precisa que os governos, a sociedade, a iniciativa privada e a academia se unam para conduzir o caminho que levaria ao cumprimento dessa missão.

*Texto escrito por Fernando Rezende, viúvo de Anna e ex-presidente do IPEA

 

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