Artigo – Investimento social corporativo alinhado às políticas públicas

A complexidade da dinâmica social demanda a mobilização de múltiplos e diferentes atores para enfrentar e mitigar problemas, criar soluções e endereçar caminhos para o futuro da sociedade em geral. Esta é uma máxima, já compreendida em nível institucional por atores privados desde a década de 1990, com o advento do Comunidade Solidária, que de maneira inédita, congregou em si um fórum capaz de fomentar a atuação colaborativa entre setor público e privado.

De lá pra cá, diversos momentos da história pública contaram com a participação e influência de atores privados, sejam eles empresas ou organizações da sociedade civil. Essa colaboração levou a cabo políticas públicas importantes durante a primeira década do século XXI. Na memória recente, a participação das empresas no enfrentamento aos impactos gerados pela COVID-19, tanto por sua dimensão, quanto pelos inúmeros desafios impostos ao Estado, foi notória.

A imagem mostra, no canto esquerdo, um vaso com um cacto. No centro, aparece um desenho estilo infantil, com bonecos de palitinhos, onde se lê "investimento social privado". No canto direito da tela, aparece um caderno com capa marrom

Crédito da imagem: Bússola Blog

Ações exitosas que congregaram recursos públicos e privados (lato sensu) aparecem aos montes e, destas, destacam-se aos olhos da academia e no campo do investimento social privado (ISP), aquelas que primaram pela geração de valor público em prol do interesse público, em detrimento do valor privado unilateral. Não que não existissem, em todas elas, algum tipo de interesse privado, mas, nestes casos, eram um resultado da ação colaborativa construída a partir da visão de “valor compartilhado”.

Utilizando o cenário pandêmico enquanto exemplo, não só houve o reconhecimento dos desafios e limitações do Estado, num segundo momento, de mitigar os efeitos da COVID-19, como também se explicitou a dimensão do impacto da pandemia em todas as esferas da vida humana e, portanto, as empresas seriam substancialmente afetadas, sejam nos seus negócios, investimentos ou colaboradores. Sem o restabelecimento, rápido, da dinâmica social ora interrompida, a sustentabilidade e longevidade das empresas minguariam.

Usando outro exemplo, o advento e disseminação da agenda ESG têm pressionado as empresas a terem um olhar integrado e sistêmico sobre os impactos positivos e negativos que suas atividades geram e a demonstrarem isto para seus stakeholders – particularmente aos seus investidores.

Estes dois exemplos mobilizados são propulsores que geraram no mercado privado uma postura reativa à demanda colocada. Contudo, também não é de hoje que o mercado privado compreende seu papel social e atuação de maneira ativa. O investimento social privado realizado pelas empresas (e também pelos seus institutos/fundações), como conhecemos hoje, é uma prática qualificada e sistemática de incidência social há pelo menos 20 anos.

Nesse sentido, há pelo menos 10 anos o BISC discute e dialoga sobre a ampliação qualitativa (impacto) e quantitativa (escala) da atuação social das empresas por meio do alinhamento do investimento social às políticas públicas. A partir dos dados do último BISC (2021), constata-se que a maioria absoluta das empresas e institutos/fundações empresariais que compõem a Rede BISC atua colaborativamente com o Estado (a mediana dos percentuais entre 2016-2020 é de 60%). Nessa mesma linha, 62% consideram que o setor privado deve contribuir para o fortalecimento das políticas públicas, particularmente àquelas contidas na agenda de direitos humanos (BISC 2019).

Esses dois dados reafirmam o que foi dito anteriormente, de que há espaço para a atuação privada colaborativa junto à ação pública e que isto já é feito. Agora, o que se defende aqui é a intensificação desse tipo de prática. Os tempos e movimentos de ambos os polos são distintos entre si e, o exercício/desafio posto está quase sempre contido nesta esfera. A pandemia é tão contundente enquanto um case, justamente por ser um momento histórico onde os tempos e movimentos de ambos foi congregado. Mas as divergências não podem e não devem ser vislumbradas apenas com um olhar negativo. O melhor aprendizado, quase sempre, se dá nessas situações desafiadoras.

Se estas divergências não puderem ser superadas e, portanto, o potencial da atuação colaborativa eficaz diminuído, recomenda-se o esforço por parte das empresas, de investigar as políticas públicas vigentes naqueles territórios onde se quer investir socialmente e, então, alinhar seu ISP a elas de modo a garantir que o impacto social tenha perenidade, ainda que indireta, a partir da PP fortalecida, direta ou indiretamente. A complexidade do tecido social abre espaço para que exista potencial também para o fortalecimento indireto.

Em um ano eleitoral, como este, é possível incidir não apenas em políticas públicas já instituídas, como também em propostas de políticas públicas contidas em planos de governo de candidatos ao executivo da esfera estadual e federal – tanto enquanto um exercício de alinhamento, quanto um exercício de democracia. Em casos como esse, da formulação da ação pública, a prática prévia da empresa em alinhar seu ISP às PP garante em alguma medida, frente a opinião pública (seja ela qualificada ou não), o “lugar de fala” necessário para que a primeira barreira relacional, a do preconceito (aqui do Estado para com a iniciativa privada), seja rompida no sentido de reafirmar uma atuação privada desprovida de interesses unilaterais próprios e permeada de interesses compartilhados ou em benefício do público.

Somar e articular esforços é o que a história tem nos revelado enquanto boa prática. Cabem aos gestores, identificar a melhor janela de oportunidade e esfera de incidência onde isto é possível. O interesse, por parte dos stakeholders das empresas, para que o investimento social privado das mesmas e, para além, sua gestão como um todo (à luz do movimento ESG) estejam alinhadas às políticas e ação pública, já está explicitado. E este deve ser o caminho comum a ser seguido se quisermos garantir melhores condições para o desenvolvimento sustentável dos negócios, das pessoas e do meio ambiente.

Texto escrito por Hugo Pedro Guornik
Mestrando e bacharel em Gestão de Políticas Públicas pela EACH-USP, é consultor em Colaborações Público-Privadas, Investimento Social Privado e agenda ESG

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