Agenda ESG: a importância da definição de parâmetros comuns para o avanço contínuo

Confira a seguir um novo artigo na coluna na Revista Exame de Regina Esteves, diretora-presidente da Comunitas, em que ela trata da temática ESG e do longo caminho a percorrer em busca de pactuar critérios comuns de avaliação para empresas buscarem benchmarking

Creio ser possível analisar o sistema que move o ESG por camadas. Fazendo alusão a um iceberg, a superfície visível simboliza a forma como as empresas são percebidas por seus stakeholders: o que está à vista são situações reais que impactam no valor social, ambiental e econômico gerado pelas empresas e percebido pela sociedade (Imagem: Hypeness)

Desde 2020, temos vivenciado um boom do ESG no Brasil e a aceleração deste movimento transformou o que era até então um investimento de nicho em uma prática muito mais abrangente, posicionando o mercado de capitais como importante ator e catalisador da ação sustentável das empresas.

O holofote em torno da temática é muito bem-vindo, afinal, em nenhum outro momento da história precisamos tanto da consciência e ação coletiva e corporativa em torno dos desafios gerados pelas mudanças climáticas, escassez de recursos, pobreza, desigualdade e etc.

No entanto, a forma acelerada como a transformação vem acontecendo desemboca em poucos consensos, importação de pautas e reducionismo da agenda.

Como avaliar ESG por camadas

Creio ser possível analisar o sistema que move o ESG por camadas. Fazendo alusão a um iceberg, a superfície visível simboliza a forma como as empresas são percebidas por seus stakeholders: o que está à vista são situações reais que impactam no valor social, ambiental e econômico gerado pelas empresas e percebido pela sociedade.

Logo abaixo temos um conjunto de parâmetros e indicadores que norteiam aquilo que é aceito e valorizado por tais referências.

A camada mais profunda é estrutural, reunindo a legislação e regulamentações específicas determinantes para o avanço de agendas nos pilares social, ambiental e de governança.

Por fim, a base do iceberg é o modelo mental que fomenta as transformações e evolução das categorias acima.

Uma observação importante a ser feita é que vemos hoje uma geração cada vez mais consciente e exigente quanto ao papel das empresas na geração de valor social e ambiental em prol do bem público. Esta constatação permite identificar que não estamos tratando de um modismo passageiro, e sim de uma transformação consistente e duradoura.

Neste contexto, ainda aludindo à imagem do iceberg, é possível afirmar que os principais desafios para o avanço da agenda ESG estão na camada estrutural, relativa aos parâmetros e à regulamentação. Neste sentido, chama atenção que diferentes avaliações e pesquisas apontem resultados bem diferentes entre si, motivados por diferentes bases e pesos de análise.

Esta constatação permite afirmar que ainda temos um caminho longo a percorrer em busca de pactuar critérios comuns de avaliação que permitam às organizações se compararem e buscarem benchmarking de seus desempenhos dentre as empresas em geral e, principalmente, dentre aquelas do mesmo segmento, o que estimulará uma concorrência positiva.

O que está em jogo no Brasil

Uma evidência deste ponto relativo à necessidade de critérios comuns de avaliação vem da leitura da pesquisa de campo do Ranking Merco Responsabilidade ESG no Brasil, que foi realizada entre julho 2021 e abril deste ano.

O levantamento analisou separadamente a performance das empresas nos quesitos sociais, ambientais e de governança e o pódio foi conquistado pela Natura, seguida por BoticárioAmbevMagazine Luiza e Avon.

Interessante observar que três, das cinco empresas no topo do ranking são do segmento de cosméticos e perfumaria. São organizações que estão nesta jornada há algum tempo, mesmo antes do termo ESG emergir. Cada uma delas mira em suas materialidades, que acabam sendo parecidas por pertencerem ao mesmo segmento.

Neste ponto, uma leitura interessante do resultado remete à hipótese de que o verdadeiro ponto comum entre seus processos é a capacidade de integrar a geração do valor social e ambiental em seus modelos de negócio. Além disso, reorientar suas estratégias, repensando suas estruturas, forma de atuação e seus produtos em todas as etapas do processo produtivo.

O estudo, baseado no reconhecimento pelos diferentes stakeholders, olhou separadamente para as três variáveis E – Environmental, S – Social e G – Governance, e em todas o setor de cosméticos aparece entre os 5 melhores nos rankings, fator que sinaliza uma conduta mais consistente do setor.

Creio ser possível afirmar que, no caso do setor de cosméticos, temos um exemplo concreto de como o foco do ESG é capaz de gerar valor e impacto socioambiental, proporcionando reconhecimento para as empresas e, melhor ainda, estabelecendo uma agenda pública que afasta as práticas do ESG da simples redução a uma agenda de mitigação de riscos.

Estamos então, diante de um benchmarking importante, com capacidade de inspirar e emular setores e empresas na busca de agregar valor público às práticas corporativas!

 

 

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